10- O CALENDÁRIO
Eu analisava meu calendário. Não era muito diferente dos outros, a não ser pelo tamanho-meu calendário fora rabiscado em poucas linhas da folha de papel. Quando pensava a respeito, minha mente dizia-me "não se preocupe, falta muito tempo até lá", mas quando eu olhava para o calendário, meu coração lembrava-me que o tempo, mesmo que fosse bastante, correria. Depois disso resolvi dizer pra mim mesmo que o dia estava próximo.
Contei quantos domingos eu teria até lá. Foi quando eu percebi o quão louco eu estava. Segundo meu calendário, eu tinha exatamente 79 dias até o tão temido dia do vestibular. O dia do vestibular, ah, o vestibular. "Como vão seus estudos pro vestibular?" perguntavam-me quase todos. Eu não os culpava, afinal, este era meu principal assunto; mas no momento em que olhei para o calendário, meu estômago se contorceu. Toda a minha vida, meus sonhos, aspirações. enfim, tudo girava em torno daquele dia. Eu, de certa forma, me tornara aquele dia...
Meu calendário acabava no dia 13 de Janeiro. Meu coração apertou. Apesar de todos os meus sonhos remeterem à épocas mais adiante, aquele calendário acabava no dia 13. Até aquele momento, tudo o que eu costumava planejar ou esquecer era feito após a consulta àquele calendário. Eu estava preso.
Como eu era fraco e inferior. Justo eu, que sempre costumava criticar os fanáticos etc., havia me deixado enganar por um simples pedaço de papel. Eu havia posto um fim à minha vida. Ela acabaria dia 13. "Que belo dia para morrer", pensei, numa tentativa desesperada de fazer a mim mesmo rir. Besteira.
Senti raiva, raiva de mim mesmo. Eu deveria rasgar aquele calendário, isso sim! Mas eu não era capaz. Naquele momento, senti como se houvesse descoberto a razão de muitas coisas mas, mesmo sabendo o porquê, simplesmente continuasse inerte, acorrentado.
E de nada adiantariam minhas lágrimas, nem nada o que eu viesse a fazer. Eu percebi que, no fundo, era eu quem queria aquilo. Eu sabia que as pessoas me diriam para esquecer. "Você não é isso, Rafael". Mesmo assim eu continuaria desejando ser aquele calendário.
Respirei fundo, peguei a caneta, adicionei mais quatro dias além o dia 13. Seria domingo, 17. Sem dúvida, o domingo mais peculiar de minha vida. "Será bom", refleti e fechei o calendário. O dia 13 chegaria logo, mas eu havia feito uma escolha. Eu estava preso e assim permaneceria.
"Não se preocupe, ainda falta muito tempo.", sussurrava minha mente. "Relaxe, seus sonhos estão garantidos.", retrucava meu coração. Me senti esperançoso, afinal, meu coração sabia o que dizia e compreendia que, daquele dia em diante, meu maior sonho seria sobreviver bem mais do que me informou o calendário. E eu acreditava que isto seria possível. Não podia estar enganado o meu coração...ou podia?
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

nossa....
ResponderExcluirQ coisa
ResponderExcluir